“Salva-me, ó Deus, pois as águas me sobem até o pescoço. Atolei-me em profundo lamaçal, onde não se pode firmar o pé; entrei na profundeza das águas, onde a corrente me submerge. Tira-me do lamaçal, e não me deixes afundar; seja eu salvo dos meus inimigos, e das profundezas das águas. Não me submerja a corrente das águas e não me trague o abismo, nem cerre a cova a sua boca sobre mim. Afrontas quebrantaram-me o coração, e estou debilitado. Esperei por alguém que tivesse compaixão, mas não houve nenhum; e por consoladores, mas não os achei”. (Sl 69.1, 2, 14, 15, 20).

Não é fácil viver com o coração vazio. Na verdade, muita gente que se queixa de coração vazio o tem cheio de amarguras, de tristezas, de ilusões e de desânimo. Vazio de Deus, está superlotado de pensamentos negativos. A Bíblia ensina que Deus nos criou do vazio (cf. Gn 1.1,2a), e tudo indica que alguns voltam a esse vazio inicial, o que levou Henry Thoreau, escritor e filósofo americano do século passado, a dizer que “a maioria dos seres humanos leva uma vida de desespero quieto”.

Uma maneira segura de medir o vazio interior é pelo tédio sentido. A pessoa entediada vive no vácuo; o seu eu é um vácuo, e é lei do universo que o vácuo tem que ser imediatamente preenchido. Daí o anteriormente dito sobre encher o coração de dor, desilusão e amargura porque a pessoa humana quer se encher de pão, mas não da Palavra de Deus. É vazio espiritual pela perda de significado. Viktor Frankl, criador da Logoterapia, estudou esse assunto no seu O Homem em Busca de Significado. Dr. Frankl era prisioneiro num campo de concentração nazista. Homem de ciência, fez do campo seu laboratório. Observou que os prisioneiros que perdiam o significado de si mesmo e do referencial da vida perdiam igualmente a vida, diferentemente daqueles que se ocupavam em viver, e fazer de cada minuto uma oportunidade criativa.

Um homem disse ao Pr. Creath Davis, especialista em aconselhamento: “Não tenho futuro. A vida não tem nada para mim… Tudo é sem sentido!” O ser humano perde seu significado se não tem a Deus e quando não compreende ser imagem e semelhança do Criador porque toda a vida está cheia de significado; nada acontece sem sentido (cf. Mt 10.30,31), e, assim, quanto mais se busca a felicidade no mundo exterior, mais se arrisca a paz interior.

O VAZIO DE DEUS

Qualquer compreensão da pessoa humana parte da suposição de que há de ser interpretada a partir de um nível. Eu parto do nível da esperança; sua falta é a desesperança, o desespero. Mas parto, igualmente, do fato de que Deus embasa a esperança; não tê-la é não ter a Deus; não tê-Lo é não ter esperança:

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“Estáveis naquele tempo sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos aos pactos da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo”. (Ef 2. 12)

O ser humano torna-se vazio do divino porque não compreende ser Deus o “fundamento do ser”, a raiz absoluta onde se insere nossa vida e a de tudo o que existe. O ser humano, porém, é um ser-para-a-esperança. Quando esta desaparece, é o vazio: é o vazio da segurança, o vazio de Deus. O livro de Eclesiastes é sobre isso. Seu refrão “Vaidade de vaidades”(1.2; 12.8). Nada mais é que “tudo é vazio”, e seu final é a afirmação de que Deus preenche esse vazio. Por outro lado, o ser humano é um ser histórico, não apenas físico, emocional ou religioso. Não é um produto acabado num mundo materializado, secularizado, coisificado, massificado. Ele se torna o que é através da história do seu relacionamento com seu ambiente. O filósofo espanhol Ortega Y Gasset o expressou com as seguintes palavras: “o homem é ele e suas circunstâncias”. Você não é hoje o que foi ontem, mas não é hoje o que será amanhã.

Vivemos numa sociedade que se desintegra moralmente com extrema facilidade. O que não é novidade: o ciclo da história se repete (observe Gn 6.5, 11, 12; 18. 20; 19.4-9; Rm 1.18-32; Ef 4.17-24). Quer dizer que o que hoje acontece já é história contada. Os livros de história falam da degradação de culturas como a grega e a romana. Quanto à nossa sociedade, nem é preciso compulsar os livros: é só ler jornais, as novelas. Em nossa cultura, quando se chega a pensar sobre o pecado, dá-se o nome de “realismo”. Perdeu-se o respeito, perderam-se os valores, há uma obsessão pelo sexo e pela pornografia, o que sempre tem sido marca de civilização em decadência. A devassidão não exige pensamento, nem caráter, nem freios: é o que acontece com pretensos programas humorísticos. Não é de admirar que uma juventude, uma sociedade que se alimenta de podridão vomite em cima de si mesma essa mesma imundície:

“Porventura se envergonharam por terem cometido abominação? Não, de maneira alguma; nem tampouco sabem que coisa é envergonhar-se. Portanto cairão entre os que caem; quando eu os visitar serão derribados, diz o Senhor.” (Jr 6.15).

E nunca se falou tanto de religião quanto hoje. O rádio, a TV, as praças estão repletos de programas religiosos católicos, evangélicos e outros, e o povo surdo à mensagem de esperança de Jesus Cristo (cf. Rm 1.21, 22).

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C. J. Jung diz ter tratado centenas de pacientes, sendo que, em todos os casos, o último recurso que ele apontava era a perspectiva religiosa da vida. E nenhum paciente ficou realmente curado a não ser quando recuperou sua fé. O senso do santo parece ter desaparecido da sensibilidade moderna, deixando um vazio que é uma das feridas mais cruéis, o que torna Deus um estranho ao ser humano, e termina por fazer os homens estranhos entre si.

Pensemos na situação do drogado. Alguém pode até imaginar que a experiência de drogas seja um ato de existencialismo. Seria, então, um ato de vivência, um ato próprio, uma mensagem de que se existe. Afinal, inconscientemente o viciado admite o fato que sente, tem esperanças, ama e odeia. Portanto existe. Não baseia sua vida na razão, mas no ser-que-existe, e nessa ânsia de se fazer presente, notado, é imediatista (“Olhem, estou usando drogas, portanto [ainda] existo!”).

Na verdade, o que existe é uma imensa crise no mundo; aliás, crises. Crises que se unem como fios de uma teia de aranha. É a crise de identidade, a crise de autoridade, a crise de valores, por isso, a “era da ansiedade”, como bem o expressou W. H. Auden. O ser

humano não sabe se é um verme, um rato, uma pessoa ou um semideus.

Um moço disse ao Pastor Billy Graham: “Perdi a minha fé”. Ele respondeu: “Não, a fé que você perdeu não era a sua. Era de seus pais. Saia e conquiste sua fé pessoal”. É o que falta.

PROPOSTA

Todos os projetos para mudar o mundo se reduzem a dois: reforma das instituições e reforma da pessoa humana. Assim é com o capitalismo, com o que resta do comunismo, com as teologias da libertação (latina, africana, asiática, feminina), assim com as utopias sociais e políticas.

Trago a proposta do evangelho: a reforma do mais íntimo do ser humano, o preenchimento do seu vazio interior. Se quisermos refazer o mundo, temos que começar por refazer o indivíduo, então as instituições serão boas.

O ser humano tem um papel privilegiado na terra:

“Que é o homem, para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites? Contudo, pouco abaixo de Deus o fizeste; de glória e de honra o coroaste. Deste-lhe domínio sobre às obras das tuas mãos; tudo puseste debaixo de seus pés; todas as ovelhas e bois, assim como os animais do campo, as aves do céu, e os peixes do mar, tudo o que passa pelas veredas dos mares.” (Sl 8.4-8).

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“Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Então Deus os abençoou e lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra.” (Gn 1.27, 28)

“Que aproveitará ao homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua vida?” (Mt 16.26).

Essa é a enorme pergunta a nós lançada desde os séculos. O mundo está cheio de profetas da desgraça, do desespero. No entanto, há uma alternativa ao desespero: é Deus. SØren Kierkegaard, teólogo protestante precursor do moderno existencialismo cristão, falou que o desespero (experiência existencial) encontra resposta na confiança radical (o “salto da fé”). É disso que o angustiado precisa. Outro existencialista cristão, Paul Tillich, diz que em lugar de tomar a estrada do desespero e falta de sentido (solução do existencialismo ateu), em sua ansiedade, o ser humano está no ponto em que Deus pode alcançá-lo. Quando aceita sua limitação e a ansiedade que ela traz, e tem coragem de ser ele mesmo, Deus o redime. O que quer dizer que os problemas da vida são resolvidos não pela conformação, mas pela reação e ação.

Há um remédio para o vazio espiritual. Encontra-se em Efésios 5.18: “enchei-vos do Espírito”. Não poderá haver paz no mundo se não houver paz na alma. No Antigo Testamento, a pessoa humana é uma unidade. Jesus Cristo mostra a unidade do ser humano quando da realização das curas sempre ligadas ao bem-estar total. Outrossim, Ele mesmo exclamou nos termos de uma parábola: “Insensato, esta noite te pedirão a tua alma, e o que tens preparado, para quem será? ( Lc 12. 20) Pois é; a Escritura mostra o ser humano uno. Hoje, no entanto, parece ser apenas nervos e complexos. É frustrado porque espiritualmente vazio; é alienado por ser vazio espiritualmente.

O encontro de um homem endemoninhado em Gadara, acontecimento narrado em Marcos 5.1-20, é a típica história da pessoa vazia de Deus: alienada de Deus (v. 7), de si (v. 9), dos outros (v. 3). O encontro com Jesus, no entanto, transformador como é, traz um encontro com Deus (v. 19), consigo (v. 15) e restaura a vida social (v. 19). De vazio a pleno espiritualmente falando pelo evangelho.

por: Walter Santos Baptista, Pastor da Igreja Batista Sião – em Salvador, BA

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