Um Coração que Ouve

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A depressão econômica nos anos 1930 fez com que os empregos nos Estados Unidos ficassem muito escassos. Um dia, quando certa empresa divulgou sua necessidade de preencher uma única vaga, centenas de pessoas se candidataram para preenchê-la. Depois de uma longa manhã em que dezenas de empregados em potencial foram entrevistados, ouviu-se pelo alto-falante um ruído estranho com uma seqüência de batidinhas. Imediatamente, um homem se colocou em pé com um salto e entrou gritando e correndo pela porta da gerência. Alguns instantes depois, o gerente saiu da sua sala e anunciou que a vaga acabara de ser preenchida. As pessoas que ainda estavam esperando do lado de fora começaram a murmurar; afinal, nem tiveram a oportunidade de uma entrevista. O gerente acalmou a multidão e perguntou: “Quantos aqui ouviram o ruído das batidinhas no alto-falante?” Todos afirmaram que tinham ouvido. O gerente então explicou que estava procurando alguém que entendesse o Código Morse e, por isso, transmitiu em Morse a seguinte mensagem pelo sistema de som: “Se você é capaz de ouvir esta mensagem e entendê-la, fique de pé, grite e corra para a porta da gerência – o emprego é seu!”
Ao proclamar o Reino de Deus, Jesus clamava vez após vez: “Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça!” (Mc 4.9). Uma das faculdades espirituais mais preciosas e essenciais que um discípulo do reino precisa cultivar é um coração que ouve. Esse tipo de coração preparado é capaz de discernir entre sabedoria natural e compreensão espiritual, o que lhe dá a habilidade de subir “com asas como águias” (Is 40.31), transcendendo a mente natural e aprendendo a “discernir” as coisas espiritualmente (1 Co 2.14-15). O Pai dá ao coração que ouve a capacidade de compreender os seus caminhos, valores e linguagem celestiais.

O PEDIDO DE SALOMÃO
Quase todos já ouviram a história de Salomão na Escola Dominical ou em alguma pregação. A versão normalmente contada é que o jovem rei Salomão pediu sabedoria a Deus e, por isso, ganhou fama universal em virtude da grande sabedoria que lhe foi concedida. Entretanto, os fatos não foram exatamente esses. Examinando cuidadosamente as Escrituras, descobrimos que Salomão, na verdade, não pediu sabedoria. O que pediu foi um coração que ouve.
Em Gibeom, apareceu o Senhor a Salomão, de noite, em sonhos. Disse-lhe Deus: Pede-me o que queres que eu te dê. Respondeu Salomão: […] tu fizeste reinar teu servo em lugar de Davi, meu pai; não passo de uma criança, não sei como conduzir-me. […] Dá, pois, ao teu servo coração compreensivo para julgar a teu povo, para que prudentemente discirna entre o bem e o mal; pois quem poderia julgar a este grande povo? Estas palavras agradaram ao Senhor, por haver Salomão pedido tal coisa (1 Rs 3.5-10).
A surpreendente oferta de Deus para Salomão foi a coisa mais próxima de esfregar a lâmpada de Aladim para ganhar três desejos que já chegou a acontecer de verdade! Curiosamente, o jovem rei desdenhou uma infinidade de coisas desejáveis, contentando-se em pedir somente um coração compreensivo. A palavra compreensivo, em hebraico, é shama, que significa ouvir, escutar, obedecer (Concordância Strong nº 8085).
Shama é um conceito muito diferente de sabedoria e é uma das mais belas atitudes e que mais agradam ao Senhor.

DISCERNINDO ENTRE SABEDORIA E UM CORAÇÃO QUE OUVE
Sabedoria consiste de um acúmulo de conhecimentos e experiências reunidos dentro de um ser humano. Para exercitar sabedoria, a pessoa precisa vasculhar seu interior à busca de respostas, extraindo do seu reservatório fatos, valores, sistemas, abordagens e ensinamentos recebidos de outrem, além dos frutos de sua própria educação, prática, percepções e experiências de vida armazenados ao longo de sua vida. Sabedoria, de acordo com as Escrituras, tem a ver com habilidade, sagacidade e prudência; é a correta aplicação do conhecimento. A memória de ocasiões em que fomos tolos ou vítimas de tolice, resultando em grande prejuízo pessoal, faz-nos prestar profundo respeito à sabedoria, dando-lhe o lugar de honra que merece. A sabedoria é um valioso recurso para um discípulo do reino; descobriremos, entretanto, que em hipótese alguma serve como substituto para um coração que ouve e que, sozinha, a sabedoria pode até ser um empecilho para quem quer seguir a Jesus.
O coração que ouve, que Salomão pediu, envolve dependência de Deus. Com humildade, o coração shama confessa ignorância e busca respostas não a partir dos recursos pessoais de sabedoria, mas, sim, com base num relacionamento dinâmico de dependência com o próprio Senhor Jesus, como o Deus Vivo. A sabedoria, num certo sentido, é estática, completa em si mesma e autoconfiante; um coração que ouve é dinâmico e dependente de Deus.

ENTRAR COMO CRIANCINHAS
Salomão entrou no seu reino terreno exatamente do jeito que o Novo Testamento nos ensina a entrar no reino de Deus, como uma “criancinha”. É muito difícil não perceber a ligação entre um coração que ouve e a dependência de criança necessária para se entrar no reino de Deus (Mt 18.1-4).
A conversão em criança que Jesus exige dos seus discípulos é uma mudança radical por meio da qual alguém deixa de apoiar-se em sua própria astúcia e sabedoria e passa a ter a dependência, a confiança e a consciência da presença do Pai de um coração que ouve. As crianças são conscientes de suas limitações e de seu status de aprendiz. Uma conscientização inata de sua humilde posição de principiante torna-lhes mais fácil e natural pedir ajuda a todo o momento. As crianças também precisam de parâmetros definidos para se sentirem seguras. A vida de uma criança gira numa órbita muito apertada ao redor do amor, da provisão, do cuidado, da instrução, da correção e da afirmação dos seus pais. Surpreendentemente, Deus, o Pai, também quer uma ligação muito semelhante conosco, qualquer que seja a nossa idade natural ou espiritual.
À medida que amadurecemos fisicamente e aprendemos a seguir a Jesus, descobrimos um paradoxo: o processo de maturidade que ele planejou para nós na realidade aprofunda ainda mais o nosso nível de dependência nele! Essa pode ser uma realidade desconfortável, ou até mesmo uma pedra de tropeço, para crentes adultos enraizados em sua própria sabedoria auto-suficiente.
As Escrituras consistentemente fazem distinção entre sabedoria e entendimento. Entendimento é um sinônimo bem apropriado para um coração que ouve. Podemos pensar em entendimento como “estar sob alguém”. Uma criança fica debaixo de seu pai e, em virtude desta proximidade relacional, aprende a interpretar suas maneiras de agir. Jesus comprou para nós o direito de ficarmos sob o infinito reservatório de sabedoria de seu Pai num relacionamento dinâmico com ele. Confiar no nosso próprio entendimento (sabedoria) é permanecer sob o nosso próprio eu; é o cego guiando outro cego. Desentendimento é simplesmente não se colocar sob a orientação do Senhor. O coração que ouve do filho do Reino permanece confiantemente debaixo de Deus Pai, numa proximidade que o habilita a ouvir e compreender os caminhos e os pensamentos “mais altos” do Pai (Is 55.9).
Quando examinamos as Escrituras, é fascinante ver como Deus costumava usar pessoas jovens, inexperientes, inseguras, impressionáveis, ignorantes, dóceis ou mal equipadas para executarem a sua vontade. Na verdade, a Bíblia diz que Deus intencionalmente escolhe os tolos e os fracos (1 Co 1.26-29). José tinha 17 anos quando começou a sua estranha vocação com um sonho. Gideão tentou convencer Deus a não escolhê-lo dizendo: “Eu sou o menor da minha família” (Jz 6.15, NVI). Davi também era o mais jovem entre seus irmãos; eles nem se deram ao trabalho de convidar o “pequeno atrevido” para a reunião na qual o profeta Samuel ungiria um deles como rei. Pouco tempo depois, aquele jovem garoto cortou a cabeça do gigante Golias.
Maria tinha cerca de 15 anos quando o anjo apareceu e encontrou nela um precioso coração que ouve. É muito evidente que ela já se posicionara debaixo do Senhor, pois sua resposta a ele foi imediata: “Aqui está a serva do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra.” (Lc 1.38). Curiosamente, um parente mais velho de Maria, Zacarias, respondeu de maneira bem diferente ao mesmo anjo que lhe deu uma mensagem quase idêntica. Depois de viver por muitos anos confiando no seu próprio entendimento, sempre recorrendo ao seu próprio reservatório de sabedoria, Zacarias não conseguiu acreditar no anjo (Lc 1.18).
Há um traço pernicioso, independente que percorre toda a essência da nossa natureza pecaminosa. Nosso desejo é resolver as coisas por conta própria e permanecer no controle. Não vemos a hora de estarmos “crescidos” a fim de não termos de prestar contas a ninguém nem de sermos obrigados a receber ordens dos outros. Os discípulos do reino freqüentemente sentem-se frustrados quando o “botão automático” da carne os leva a consultar a própria sabedoria ao invés de encostar o ouvido ao peito do Pai. Essa tendência estava na raiz da história turbulenta do povo de Israel e, agora também, é a praga da igreja. Não podemos nos esquecer que a verdadeira origem da queda de Lúcifer, e depois do homem, foi o desejo de ser sábio como Deus (Gn 3.6).

PERMANECENDO SOB O NOSSO MESTRE
Em muitas ocasiões, tenho resistido à direção do Senhor, somente para lamentá-lo profundamente mais tarde. Entretanto, Deus tem utilizado essas falhas para me moldar como seu filho. Uma boa parte das minhas desobediências envolveu situações que evocavam amargas lembranças de experiências semelhantes que passara anteriormente, nas quais eu fui queimado, traído ou humilhado. Não demora muito tempo para um homem ou mulher de Deus ir se endurecendo imperceptivelmente, na medida em que procura ouvir mais a experiência e a opinião pública a respeito do que deve ser dito ou feito do que a voz do nosso Mestre radical. Para “salvar a minha própria vida”, meu coração quer resistir aos apelos de Deus para que me envolva em determinadas situações. Se eu resistir por muito tempo, logo não conseguirei mais ouvir o Senhor e, finalmente, ele pode parar totalmente de me pedir essas coisas; com isso, uma dimensão do Reino e uma medida correspondente de intimidade com o Pai estarão fechadas para mim.
Com que rapidez e profundidade se instala um espírito de dureza e auto-suficiência! Nosso coração de criança se converte numa fortaleza de sistemas de defesas, de estratégias inteligentes e de omissões espertas. Fazemos votos em meio a lágrimas: “Não vou pastorear mais.” “Nunca mais abrirei o meu coração daquele jeito para uma outra pessoa.” “Nunca mais porei o meu pescoço para fora…” Só depois é que percebemos o impacto do que fizemos: ao deixarmos de lado o nosso coração que ouve, o Pai também ficou excluído do lado de fora, deixando-nos “protegidos” de determinados riscos, porém sozinhos.
Ouça-me agora; quando nos abrimos para ele, quando voltamos e nos colocamos sob a sua voz, o conforto do Pai é tão profundo e tão doce que vale a pena tudo que porventura tenhamos passado ou teremos de passar! Deixar que Deus ame através de você é arriscado e doloroso, mas a alegria e a recompensa são imensuráveis.
Nesse contexto, podemos nos lembrar de um precioso discípulo na igreja primitiva, chamado Ananias, que mantinha seu coração que ouve bem próximo ao Pai. Na cidade de Damasco, o Senhor o chamou numa visão (At 9.10) e pediu que fosse manifestar seu amor a Saulo de Tarso (mais tarde chamado Paulo), um homem que conhecidamente era um violento perseguidor da igreja em Jerusalém e que tinha vindo para prender os crentes em Damasco também! Apesar dos temores de Ananias, Deus lhe disse: “Vá”. O coração atencioso de Ananias prevaleceu sobre o seu “juízo sensato” (sabedoria), e ele obedeceu ao Senhor abrindo as portas do Reino para o homem que depois lançaria os fundamentos teológicos do Novo Testamento!
O coração que ouve salta ao ouvir a palavra do Senhor, mesmo que seja para entrar em vulnerabilidade ou dificuldade. O “perfeito amor” que se derrama sobre nós enquanto permanecemos sob sua voz verdadeiramente “lança fora todo medo” de traição, humilhação ou perda (1 Jo 4.18). Talvez seja esse o segredo dos apóstolos que conseguiram voltar a uma cidade na qual acabaram de ser chicoteados ou apedrejados.

PRINCÍPIOS DE ORAÇÃO
Concluindo, quero falar a respeito de dois princípios de oração que um coração que ouve aplica naturalmente nessa questão de andar nos caminhos do Senhor.
Deus dá direções aos seus filhos, mas raramente diz tudo de uma só vez ou mostra o quadro todo. Deus quer que busquemos a ele a cada passo para entendermos os detalhes específicos. Nunca pegue a parte das instruções que já recebeu, por mais empolgante que seja, e tente realizá-la na sua própria sabedoria; volte a ele vez após vez e pergunte: “Pai, como queres que seja feito?” e: “Estou esquecendo alguma coisa que é importante para ti?” Esse é o caminho para o entendimento!
Tenho uma oração simples que repito constantemente diante do Senhor: “Pai, interrompe-me”. Meu pai terreno me ensinou a “andar no mesmo compasso do Espírito”. Minha tendência é andar muito atrás – ou muito à frente! Assim, procuro manter sempre um convite franco e vulnerável para que o Senhor me interrompa, seja qual for o custo, o prejuízo ou a vergonha que a interrupção possa me causar, porque não quero continuar caminhando numa direção errada. Ele tem respondido essa oração de maneiras muito misericordiosas, livrando-me de mim mesmo e das minhas “brilhantes” idéias. Eu nunca me senti mais amado e seguro do que quando o Pai me interrompeu; pois é uma prova de que ele se preocupa comigo e que é muito mais sábio do que eu.
O que teria acontecido se Salomão tivesse mantido o “interrompe-me” como um convite sério e permanente para o Senhor nos seus dias finais? Talvez Deus tivesse conseguido penetrar o véu do seu repertório de “sabedoria” e injetar uns conselhos paternais acerca dos efeitos que as mulheres estrangeiras e idólatras estavam exercendo sobre ele. Que grande e lamentável ilustração do nosso tema; o homem mais sábio do mundo, o autor de 3000 provérbios (1 Rs 4.32) terminou alienado do Senhor, arrebatado por esposas com seus ídolos de madeira e de pedra. A vida de Salomão certamente reforça a suprema importância de um coração que ouve; permanecendo humildemente como uma criancinha numa dependência dinâmica do Pai, sempre consciente das próprias inclinações tolas e desejosa por receber sua sábia e amável correção.

Eric Mumford é filho de Bob Mumford (autor de “A Patrola de Deus”, “Acerte o Seu Alvo” e muitos outros livros). Atualmente Eric é responsável pelo ministério Lifechangers (www.lifechangers.org) e pelo desenvolvimento de uma família ampliada de amor que acolhe órfãos nos países de Ucrânia e Uganda, num ministério chamado “Father’s House” (Casa do Pai).

Impacto / Padom

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