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Durante as 32 horas que permaneceu em Rio Branco (AC) para ouvir familiares, amigos e aliados políticos a respeito do convite para trocar o PT pelo PV, o comportamento da senadora Marina Silva (PT-AC), ex-ministra do Meio Ambiente, deixou em todos os interlocutores a certeza de que será mesmo candidata a presidente da República.
Foram horas marcadas por ansiedade, choro e ranger de dentes. Em várias ocasiões, a senadora e seus aliados não conseguiram controlar a emoção. Choraram ao relembrar de fatos que foram permeados por apelos para que permaneça no PT.Evangélica da Assembléia de Deus, ela tem jejuado e pediu a várias pessoas para que dobrem os joelhos em oração para que Deus a ilumine e mostre o melhor caminho.
Durante as conversas, Marina Silva várias vezes se referiu ao PT como “o nosso partido”, mas um apelo evidenciou ainda mais a disposição dela de se desfiliar da legenda para estabelecer uma nova fase na sua trajetória política.
– Vocês não precisam me acompanhar. Permaneçam no PT e mantenham a coesão da [coligação] Frente Popular do Acre para que possam ser ampliadas as conquistas até aqui alcançadas nos três mandatos consecutivos de nosso partido. Esse é um projeto político que tem dado certo no Estado – afirmou.
A primeira conversa de Marina Silva foi com a família dela, logo após desembarcar em Rio Branco na tarde sexta-feira. Parte da família veio do seringal Bagaço, onde a senadora nasceu. Prevaleceu entre todos o ponto de vista de “seu” Pedro, o pai dela, de que “o que ela decidir está decidido”.
A senadora se reuniu posteriormente com o governador Binho Marques (PT), a quem considera o maior amigo de sua vida, além de ser o principal aliado político dela. Marques a conheceu por acaso há mais de 28 anos, quando Marina estava grávida da filha Shalom e caiu.
Ele a ajudou a se reerguer do chão e desde então fizeram parte de um grupo de teatro como atores, sendo que ela gostava mesmo era de costurar as roupas do figurino. Começaram a militância no PT e cursaram história na Universidade Federal do Acre.
Filho de uma família de classe média, considerado o “riquinho” do grupo, foi Marques quem pagou a inscrição dela na universidade, comprava livros e com quem compartilhou lutas no movimento estudantil.
Nos últimos dias, o governador tem sido procurado por petistas de alto coturno que apelam para que ajude a dissuadir Marina Silva da aparente disposição de abandonar seus 30 anos de militância no PT.
– Tenho que ser sincero: a luta da Marina tem ganhado um projeção cada vez maior no cenário nacional e mundial. Nós não temos a menor possibilidade de pressioná-la para mudar o que pensa e faz – é o que tem respondido de essencial o governador.
Durante a reunião com Binho Marques e um seleto grupo de amigos, que chegou a durar mais de quatro horas, a senadora recebeu um telefonema do teólogo Leonardo Boff. Ela pediu permissão para acionar o viva-voz e Boff fez uma comovente defesa da candidatura dela à presidência da República.
Quem conhece a amizade de Binho Marques e Marina Silva sabe que ele jamais vai discordar ou virar opositor de uma eventual candidatura dela. Na avaliação do governador, a candidatura Marina Silva poderá ter o mesmo impacto no Brasil que teve a candidatura de Jorge Viana no Acre, no início os anos 1990.
– O Jorge não venceu, mas a candidatura dele mudou para sempre a história política do Acre, quando finalmente foi eleito prefeito de Rio Branco e duas vezes governador do Estado – argumentou.
Marques também se referiu aos impactos políticos que poderá ter no projeto político da coligação Frente Popular do Acre, responsável pelo terceiro mandato no governo estadual.
– Apesar da virada no nosso projeto, o que me deixa mais feliz é poder constatar que a melhor proposta política para a campanha presidencial de 2010 surge do Acre com a Marina – afirmou.
Marina Silva deixou claro a alguns de seus interlocutores que não vai esperar até o final do mês para anunciar sua decisão, que acontecerá após manter mais algumas conversas em Brasília. É possível que o anúncio da decisão ocorra na próxima semana.
Na sexta-feira, o Blog da Amazônia procurou o ex-governador Jorge Viana, um dos principais articuladores daquilo que o próprio denomina “engenharia política”, que tem possibilitado vida longa ao PT no governo do Acre. Viana disse que só se manifestaria após conversar com a senadora. Procurado neste domingo, desconversou mais uma vez.
– Eu ainda estou de quarentena. Binho e eu ainda pretendemos ter mais uma conversa com a Marina. Eu vou aguardar mais para me manifestar sobre essa questão porque é muito delicada.
Viana, que recentemente se apresentou no Acre como futuro coordenador da campanha de Dilma Rousseff na região Norte, reconheceu em conversas com pelos três interlocutores que a senadora está decidida a mudar de partido.
Disse que não vai desistir de convencê-la a permanecer no PT, o que tem sido interpretado como mais sendo um mensageiro do Planalto em ação. Ele chegou a reclamar das “influências externas” que a senadora estaria sofrendo, referindo-se aparentemente às lideranças verdes.
O maior problema para os petistas do Acre é como se explicar de uma provável cobrança do presidente Lula, que alegará o apoio de sua gestão ao governo estadual. Por ora, os petistas não têm resposta no caso de Lula os responsabilizar por permitirem que Marina Silva esteja mudando o cenário da sucessão presidencial.
– O governador Binho Marques, o ex-governador Jorge Viana e o senador Tião Viana têm o dever de dizer ao presidente que essa situação decorre da opção que ele fez por Dilma Roussef e Mangabeira Unger para forçar a saída de Marina do ministério – afirma uma fonte ligada à senadora.
Na avaliação do secretário de comunicação do governo do Acre, Aníbal Diniz, suplente do senador Tião Viana, o PT vai pressioná-la até o último momento.
– De um jeito ou de outro sempre se entra pra história. Pode ser que a Marina esteja entrando pela porta da frente, se for eleita presidente, e pode ser que ela seja responsável por um retrocesso irreparável para a geração atual, tanto no Acre quanto no Brasil – avalia Diniz.
Jorge Viana parece não ter desistido ainda. Ele apelou para que o presidente da Assembléia Legislativa, deputado Edvaldo Magalhães (PCdoB), entre no circuito também para tentar demover a ex-ministra.
Magalhães, cujo partido disputa a indicação da vice-governadoria ou uma cadeira no Senado a partir de 2010, viajou na madrugada de domingo no mesmo avião que levou Marina Silva até Brasília, por exigência dos filhos, para passar o dia dos pais com o marido Fábio Vaz de Lima.
– Boa sorte, Marina – disse o líder estadual do PCdoB ao abraçar e beijar a testa da senadora dentro avião.
oglobo/padom

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