“E disse ao povo: Acautelai-vos e guardai-vos de toda espécie de cobiça: porque a vida do homem não consiste na abundância das coisas que possui. Propôs-lhes então uma parábola, dizendo: O campo de um homem rico produzira com abundância; e ele arrazoava consigo, dizendo: Que farei? pois não tenho onde recolher os meus frutos. Disse então: Farei isto: derribarei os meus celeiros e edificarei outros maiores, e ali recolherei todos os meus cereais e os meus bens; e direi à minha alma: “Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te, Mas Deus lhe disse: Insensato, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” (Lc 12.15-29)

Jesus contou uma pequena história, dando-nos com ela um resumo do significado da vida. Ele fala da vida aqui, e da vida além; refere-se a investimentos espirituais e morais neste plano de vida, e mencionou dividendos em termos de eternidade. Uma pequena história, uma simples parábola, e algumas preciosas lições.

ASPECTOS
Que não se diga que só há aspectos negativos. Por inferência, extraímos alguns fatos importantes:

A fazenda produziu em abundância (cf. v. 16b). É sinal de trabalho árduo, planejado, boas sementes, tempo dedicado, amor ao ofício. Bom sinal!
O fazendeiro é previdente e bom planejador (v. 18). Se seus armazéns não são suficientemente espaçosos, fará maiores. Não há mal algum nisso!

Entanto, ao lado do positivo há aspectos negativos:

Tremendo egocentrismo. É somente observar como o fazendeiro repete eu, meu, minha, sinal do egoísta inveterado. No Oriente, o habitante sempre tem uma comunidade ao seu redor por ser essencialmente gregário. Isso acontece na alegria ou na tristeza. A Escritura tem exemplos desse fato: quando o pastor encontrou a sua ovelha perdida, reuniu os amigos e celebrou (Lc 15.5,6); quando a dona de casa encontrou a moeda perdida, alegrou-se com as amigas e vizinhos (Lc 15.8,9); quando o filho perdido voltou para casa, houve uma celebração (Lc 15.22,23): Na morte de Lázaro, “muitos dos judeus tinham vindo visitar Marta e Maria, para as consolar” (Jo 11.19). No entanto, este homem está só: seu único auditório era sua própria alma.
O outro aspecto negativo é a sua indiferença para com Deus, e para com o seu próximo. Sua preocupação é auto-satisfazer-se. Assim, não dá um passo além de si mesmo: era rico para si, e vazio diante de Deus.

Neste ponto está uma linha de compreensão do problema: de um lado, uma riqueza que se fecha sobre aquele homem (que pode ser qualquer pessoa), convertendo-o num simples momento do complexo sistema do universo; por outro lado, a riqueza para Deus, ou seja, a que abre a vida das pessoas humanas ao mistério, para além dos limites desta vida.

Duas coisas naquele primeiro momento se destacam:

  • nunca olhava para além de si mesmo, ou seja, todos os seus planos começam e terminam nele mesmo: “e direi à minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te” ( Lc 12.19).
  • E a outro é que não olhava além deste mundo, vale dizer, todos os seus planos nesta vida teriam limitação: “Mas Deus lhe disse: Insensato, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” (Lc 12.20).

ANALISANDO
Voltemos ao texto, o verso 15 diz “Acautelai-vos e guardai-vos de toda espécie de cobiça; porque a vida do homem não consiste na abundância das coisas que possui”. Na realidade, a vida não se possui, não se compra nem se vende. “E direi à minha alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te” (v.19). É um sumário de insensatez! Quantos esquecimentos ao mesmo tempo! Esqueceu-se do doador, por essa razão fala tanto em “meus frutos”, “meus bens”, “eu”. Usou doze vezes, explícita ou implicitamente, os pronomes relacionados com a sua pessoa, e esqueceu-se de que Deus foi o doador, esqueceu-se do próximo, reservando cobiçosamente tudo para si próprio. Esqueceu-se de sua alma, e imaginou que coisas como essas poderiam servir de alimento para alma. Esqueceu-se da morte. Além de tudo o mais, iludiu-se a si próprio, e alimentou-se de falsas esperanças:

“Mas Deus lhe disse: Insensato, esta noite de pedirão a tua alma: e o que tens preparado, para quem será?” (v. 20). Essa é a nossa história, a história de qualquer ser humano! Hoje mesmo, a alma pode ser pedida, e se a pessoa não se lembra de Deus, é insensata! Ë o ser humano cuja vida está pendurada por um fio, podendo ser chamada a qualquer instante para prestar contas de si mesmo. Torna-se necessário que soe a voz de Deus para penetrar no isolamento criado pelo próprio ser humano, e confrontá-lo com uma visão de si próprio!

“Assim é aquele que para si ajuntou tesouros, e não é rico para com Deus’ V. 21). E, assim, Jesus Cristo dá a moral da história: é rico, no que diz respeito a Deus, quem busca o governo de Deus, o reino de Deus, a vontade de Deus em primeiro lugar.

Dar um passo além de si mesmo é tocar a Deus, é tocar o próximo. Eis, portanto, outra linha para entender o tema que Jesus está discutindo: rico para o mundo é quem vive escravizado em si mesmo e no que tem; rico para com Deus é quem sabe que o ser humano é sempre mais do que aquilo que tem, e busca sua plenitude na confiança, no serviço, no amor. O rico se deleita na fortuna seja ela material, intelectual, e, até, religiosa; o pobre morre de fome, seja material, seja de significado, ou espiritual. Temos, então, o que um teólogo (Javier Pikaza) chamou de escatologia individual: não se precisa esperar o fim do mundo para se chegar ao fracasso ou à realização.

UM PASSO ALÉM DE SI MESMO

Estes passos podem ser aplicados também na vida de quem já confessou a Jesus Cristo como Salvador:

  • Olhe para a sua vida através dos olhos de Jesus Cristo, e dela afaste tudo o que Ele não aprova. Faça confissão. Talvez você seja tentado a confessar pecados marginais, e a deixar pecados centrais sem serem tocados. Vá ao cerne de seu problema: isso é arrependimento, realidade de que até o já crente precisa estar ciente e alerta (cf. Pv 15.24: Lc 22.32).
  • Volte-se para Jesus Cristo com tudo o que você é e tem. Olhe para seus relacionamentos, e vá com eles a Jesus Cristo: seu lar, seus negócios, suas relações sociais, tudo! Vá a Cristo em confiança e fé, e creia que Ele o recebe , e você O recebe!

Não se esqueça de que dar um passo além de si mesmo é andar na fé. Isso não é um destino, não é um ponto final, não é fim de linha. É uma viagem, uma continuidade. Atos 2.42 diz que os discípulos em Jerusalém “perseveravam”. Sair de si mesmo é perseverar no Senhor e no Seu caminho!

POR: Walter Santos Baptista, Pastor da Igreja Batista Sião em Salvador, BA

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