UM PASSO ALÉM … DA TENTAÇÃO

“Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26.41).

Há a história do vendedor que estava procurando uma vaga para estacionar seu carro. Rodou alguns quarteirões uma vez, duas vezes, várias vezes, e finalmente, já em desespero, deixou o carro numa calçada, e pôs no pára-brisa um bilhetinho: “Seu guarda, dei dez voltas no quarteirão e não achei vaga; se não fizer a entrevista com um cliente, perco o emprego. ‘Perdoa-nos as nossas dívidas'”. O guarda encontrou o bilhetinho e deixou outro com a multa: “Há 20 anos que dou voltas neste quarteirão. Se não multá-lo, quem vai perder o emprego sou eu. ‘Não nos deixes cair em tentação!'”

Ninguém precisa sair atrás da tentação porque ela vem muito naturalmente. Ela vem ao pobre, ao rico, aos crentes e aos descrentes. O crente novo é tentado, e também o crente antigo. Jesus Cristo foi tentado. Sem a tentação e o direito de escolher entre o bem e o mal, seríamos apenas uma máquina. Um televisor não tem o direito de escolher se liga ou não; se sintoniza no canal 2 ou no canal 7. O alarme de um despertador funciona às 5h30 da manhã porque alguém o programou. Sem o direito de fazer escolhas, o nosso valor moral seria o mesmo de um inseto ou o de uma fera. Por isso, a tentação é uma encruzilhada em nossa vida com os letreiros trocados. No caminho do bem diz: CAMINHO DA TRISTEZA; e no caminho da miséria, da desgraça indica: CAMINHO DA FELICIDADE.

Tentação é o esforço para tentar persuadir, seduzir, e induzir alguém a fazer especialmente algo sensualmente agradável ou imoral. É aquela vozinha dentro da gente que diz “Vá em frente, Fulano, nada vai acontecer… ninguém vai ficar sabendo, não”.

No sentido bíblico do termo, a essência da tentação tem como raiz a verdade de que todas as suas forças se voltam contra o irmão! Não é que Satanás derrube nossas forças, mas ele faz que elas fiquem contra nós. Todas as suas forças, inclusive as positivas (as do bem, as da fé) vão cair nas mãos do inimigo, e são utilizadas contra o irmão. Significa que você vai ser espoliado e despojado. E três áreas fundamentais de sua vida serão atingidas: sua área física, sua área psicológica e sua área religiosa.

A TENTAÇÃO DE JESUS É O MODELO DA TENTAÇÃO DO CRENTE

Só partindo da tentação de Jesus Cristo podemos compreender o que significa a tentação para nós. Há na Bíblia duas grandes histórias de tentação. No começo da história sagrada a tentação dos primeiros pais; mais adiante a narrativa da tentação de Jesus Cristo. Na primeira, a tentação trouxe como resultado a queda do ser humano. Mas na segunda, a queda de Satanás! Ou seja, ou Adão é tentado em nós, e nós caímos, ou Jesus Cristo é tentado em nós, e Satanás é quem cai!

A história da tentação (encontrada em Mateus 4) nos chegou através dos próprios lábios de Jesus, pois não havia qualquer outra testemunha no cenário: só Jesus Cristo e o Inimigo-de-nossas-almas. Ninguém testemunhou o abandono e a solidão a que Jesus Cristo se submetera naquelas paragens. Jesus fora levado pelo Espírito ao deserto, e ali ficou solitário durante quarenta dias. Isso nos lembra que toda tentação se dá quando estamos sós. Até mesmo na multidão, sempre sós, porém.

A tentação do Salvador repete, na verdade, o padrão da tentação dos nossos primeiros pais. Veja, em Gênesis 3.6, quando a nossa primeira mãe viu aquela árvore no meio do jardim que “era boa para se comer, e agradável aos olhos, e a árvore desejável para dar entendimento”. João na sua Primeira Carta nos relembra o fato: “Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não vem do Pai, mas sim do mundo” (2.16). Pois na tentação de Jesus temos o apelo à “concupiscência da carne” (= “árvore boa para se comer” e “manda que estas pedras se tornem pães”, Mt 4.3b); temos o apelo à “concupiscência dos olhos”(= “árvore agradável aos olhos” e “lança-te daqui abaixo; porque … eles te susterão nas mãos…”, Mt 4.6); e o apelo à “soberba da vida” (= “árvore desejável para dar entendimento”, assim como “Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares”, Mt 4.9).

É a tentação do material x o espiritual, a concupiscência da carne: Jesus atacado no Seu poder, na Sua vocação, quando tudo dando certo, Satanás derrotaria a Deus. É a tentação psicológica; a tentação de dar sensação ao povo, o fascínio do espetacular (ou será do “espetaculoso” [= espetáculo + insidioso]?) É a tentação religiosa, a tentação de chegar-a-um-acordo, de contemporizar: Jesus Cristo tem a missão de ganhar o mundo para o Pai, mas Satanás quer uma troca de favores.

A primeira tentação foi de ordem física. Depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites na solidão, Jesus sentiu fome. Satanás tenta o Mestre na fraqueza de Sua carne humana, e para isso afirma a filiação divina de Jesus. Quer opor a divindade de Jesus à Sua humanidade; quer jogar com a dupla natureza de Jesus Cristo, pois sabe muito bem que a carne não deseja o sofrimento. Jesus responde com a Palavra de Deus: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4.4; Dt 8.3), e demonstra assim que o Filho de Deus está debaixo da vontade divina, e a ela quer se limitar.

A concupiscência da carne é muita coisa. Não é só o desejo sexual como muitos pensam. Realmente, o Adversário diz a dois jovens que se amam: “Vocês não se amam? Vocês não se querem? Aproveitem o sexo antes de se casarem!” É, também, a ambição, a vaidade, a ânsia pela glória, o desejo de vingança a cobiça do dinheiro. Achávamos alegria em Deus, e agora nós a buscamos nas criaturas; Deus perde a Sua realidade, pois nos esquecemos dEle. Essa é a razão porque o Novo Testamento nos ensina a fugir da prostituição, da idolatria, das paixões da juventude, e da corrupção do mundo (cf. 1Co 6.18; 10.14; 2Tm 2.22; 2Pe 1.4).

A tentação seguinte foi de cunho psicológico (Mt 4.5-7). Satanás usa a palavra de Deus contra Jesus. Sabe fazê-lo para confundir, e quer levar o Mestre a pedir um sinal ao Pai: Jesus daria um magnífico espetáculo ao povo jogando-se do alto do templo. Jesus, porém, responde mais uma vez com a Palavra de Deus: “Não tentarás o Senhor teu Deus” (Mt 4.7b; Dt 6.16). E só. Tenhamos sempre na consciência que fé que exige mais que a Palavra revelada de Deus converte-se em tentar a Deus. E o objetivo desta segunda tentação é levar o crente a cair no pecado da soberba espiritual, ou, ao inverso, no pecado do desencorajamento. Na primeira situação, o inimigo nos quer enganar quanto à seriedade da justiça de Deus. Ora, diante de Deus, um pecado, um só pecado é multidão. O hino 485 do Cantor Cristão diz em sua segunda estrofe:

“Meus pecados são muitos,
Como a areia no mar,
Mas Jesus me revela
Sua graça sem par”.

Estaria iludido o poeta? Ora, Jesus Cristo ensinou que orássemos, “perdoa-nos as nossas dívidas…” Pregar não ser mais necessário pedir perdão a Deus é ignorância bíblica, teológica, doutrinária, e, por acréscimo, soberba espiritual. Tanto faz a velha Serpente dizer “lança-te daqui abaixo, porque os anjos te sustentarão”, como “peque, e não peça perdão, porque Deus perdoa sempre”. Daí vem a negligência espiritual com respeito à oração, à meditação e à obediência. Outras vezes, o crente põe a graça e a promessa de Deus em teste. É quando desespera. Então, Satanás tira a sua alegria, e você deixa de crer na bondade do Pai. E enche o coração de medo do passado, do presente e do futuro. O crente se põe a pensar: “Deus nunca esteve comigo, não está comigo, e nunca vai me perdoar porque meus pecados são muitos”. E com essa idéia na cabeça, pede um sinal da graça fora da promessa da graça. Lembre-se de que mesmo invocando a Palavra de Deus, Satanás é o adversário, o Diabo é o diabo, e é tentador; com ele não se discute sobre pecados, mas com Cristo. Lembre-se de que Cristo chamou pecadores para fazê-los santos (Mt 9. 13b) enquanto o Inimigo-de-nossas-almas faz o inverso: convida santos para torná-los pecadores.

A terceira tentação é de ordem religiosa (Mt 4.8-10). Agora Satanás ostenta poder, e quer a apostasia de Jesus, Sua renúncia e Sua submissão. Jesus é convidado a fazer um acordo com o Maligno. O Mestre cita Deuteronômio 6.13; 10.20. Satã descaradamente quer nos separar em definitivo de Deus com a promessa de poder, felicidade e riqueza. A obra-prima de Goeth é Fausto, na qual o poeta fala do desejo humano de transcender os limites do poder e do conhecimento. Dr. Fausto envolveu-se com a bruxaria, terminando por vender a alma a Satanás com o objetivo de obter todo prazer e todo o poder.

Pois é; nessa tentação, Satanás quer transformar o Cristo no Anticristo; o cristão no anticristão, o crente no anticrente, no descrente, e com isso ultrajar o Espírito da graça, e levá-lo a pecar contra o Espírito Santo (Mt 12.31s).

REFLETINDO
Satanás odeia o crente por algumas sólidas razões: (1) porque Deus o ama, e tudo o que Deus ama, o Diabo odeia (1Jo 4.10; Ef 6.16); (2) porque como filho de Deus, o crente procura se assemelhar ao Pai (1Pe 1.16), o que significa que tudo o que recorda a Deus é objeto do ódio satânico; (3) porque o salvo é um ex-escravo que escapou do seu domínio (Rm 6.22; Gl 5.1), e essa afronta Satanás não perdoa; (4) e também porque quando o crente ora, torna-se uma ameaça à estabilidade do reino do Maligno (Mt 26.41; 1Ts 5.17). Satanás, porém, é atrevido, ousado, afoito, e tem coragem de se aproximar dos servos de Deus para tentá-los e fazê-los rebaixar os ideais. É aí que o honesto é levado a enganar o sócio, o fiel levado a esconder um segredo, o de moral ilibada levado ao rebaixamento, o sensato dá lugar à ira.

Jesus nos ajuda, no entanto. E diz a Escritura que “naquilo que ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são tentados” (Hb 2.18). E isso acontece porque Jesus Cristo compreende o poder do inimigo, tem piedade de nós, e pode vencê-lo em todas as lutas. Na verdade, Jesus o venceu no deserto, na cruz e na ressurreição, e pode fazê-lo porque tem todo o poder nos céus e na terra (cf. Mt 28.18).

UM PASSO ALÉM DA TENTAÇÃO
Há algumas coisas que devem ficar bem entendidas:

* Compreenda que você não está pecando quando é tentado. Jesus Cristo foi severamente tentado, e disso diz Hebreus 4.15: “Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado”. Portanto, “Meus irmãos, tende por motivo de grande gozo o passardes por várias provações. Bem-aventurado o homem que suporta a provação; porque, depois de aprovado, receberá a coroa da vida, que o Senhor prometeu aos que o amam” (Tg 1.2, 12). Pecado é ceder à tentação. Realmente, em si, a tentação não é pecado. É um convite a transgredir a lei de Deus.
* Desenvolva a confiança em Deus. Veja que texto maravilhoso: “Não vos sobreveio nenhma tentação, senão humana; mas fiel é Deus, o qual não deixará que sejais tentados acima do que podeis resistir, antes com a tentação dará também o meio de saída, para que a possais suportar” (1Co 10.13). E assim, reconheça que Deus lhe deu o poder de resistir à tentação. Observe que Satanás tenta, mas não obriga. Portanto, dizer que “O Diabo me obrigou a fazer isso” é conversa de quem pensa que engana os outros. O crente é que decide pecar, e age, assim, ao revés da orientação do Espírito Santo que habita no seu ser, e é maior que o Pai da mentira. Satanás ataca com coisas que parecem razoáveis, e ataca os líderes com mais fúria que aos outros membros da igreja. Ninguém é imune.
* Use a Palavra de Deus. Não diz o Salmo 119.11, “Escondi a tua palavra no meu coração, para não pecar contra ti”?
* Caindo, levante-se! Confesse o pecado a Deus, e receba Seu glorioso e restaurador perdão:

“Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; mas, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo. E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo”.

“Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 2.1, 2; 1.9).

por: Walter Santos Baptista, Pastor da Igreja Batista Sião – em Salvador, BA

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