A VOZ DE DEUS NO CONTEXTO ATUAL
“Em qualquer conversa com o povo evangélico, é muito comum ouvir expressões do tipo “Deus me falou isso”, “Deus me mostrou”, “Deus mandou fazer” etc. E isso nos assuntos mais corriqueiros, como na compra de um carro, na escolha de um imóvel ou na procura por um emprego. Muitas vezes, em seguida, quando tudo dá errado, a pessoa muda de idéia, achando que não foi Deus quem realmente falou. Mas a vida segue normalmente como se nada tivesse acontecido, e outros momentos de ouvir essa mesma voz vêm em seguida. Será que Deus é tão inconstante assim? Sua voz é tão fácil de ser ouvida? (Pv 25.2; Is 8.17; 45.15)? Há pouco tempo, uma pessoa evangélica, altamente endividada, com cheques protestados, nome sujo no SPC e SERASA, mas que mantinha um automóvel zero Km, recém-adquirido, contou-me o seguinte: “Pensei em vender o carro para pagar todas as dívidas, mas Deus me falou através de uma pregação que tivesse fé, que continuasse com o carro, e logo eu conseguiria sair desse sufoco. O carro era um presente dele para mim”. Será que Deus pode se contradizer, mantendo algo em sua Palavra escrita, e depois nos falando pessoalmente que aquilo não vale mais?
Apesar de Jesus falar que suas ovelhas ouvem a sua voz, que estão sensíveis a ela e a seguem (Jo 10.3,14,16), por que ainda temos tanta dificuldade em ouvi-la com clareza? Por que não temos discernimento em separar a voz de Deus de todas as outras vozes que chegam aos nossos ouvidos? Seria por termos banalizado tanto a sua voz, como se fosse uma mercadoria barata? Ou por usarmos liberdade excessiva, achando que podemos chegar a Deus sem qualquer preparação, como a que era exigida no Velho Testamento? Será que Deus se modernizou?

POR QUE DEUS AINDA QUER NOS FALAR?
Hoje a expressão comunhão com Deus está bastante insípida, significando um devocional com oração pelos necessitados e leitura bíblica de alguns minutos (e que luta é manter esta disciplina!).
Quando Deus fala em comunhão, sua mente está pensando em ouvir nossa voz, ver-nos face a face, intimidade total, a ponto de impregnar-nos dele mesmo, de haver uma transformação em nosso corpo e nossa natureza ser alterada radicalmente a partir daí.
Quando a Escritura diz que “aquele que se une ao Senhor é um espírito com ele” (1 Co 6.17), ou “e eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo” (Jo 12.32), está justamente falando dessa impregnação da natureza de Jesus em nós através da comunhão íntima com Deus. Não posso deixar de citar 2 Coríntios 3.18, que fala de nossa transformação à mesma imagem de Jesus, a partir do contemplar a Senhor. Nesta passagem, a figura é a de um espelho diferente, que além de refletir a imagem de Jesus, também se deixa impregnar por ela.

Pré-requisitos para a comunhão com Deus
Se realmente cremos que Deus quer ter intimidade conosco, fazer-nos ouvir a sua voz, revelar-nos os segredos de seu coração, precisamos primeiramente ouvir dele o que precisamos fazer para entrarmos nessa dimensão. Em Êxodo19, Deus mostra uma série de exigências de purificação para que o seu povo pudesse entrar em sua presença, no monte Sinai. O sumo sacerdote também tinha que respeitar todo um ritual extenso para que não morresse ao entrar no Santo dos Santos do Tabernáculo.
Hoje muitos de nós pensamos que não há mais necessidade desse ritualismo judaico, que já temos Jesus! Do ritual vazio realmente não precisamos, mas a Bíblia nos mostra que os princípios de Deus são eternos: sem santidade ninguém verá o Senhor (Hb 12.14); Deus não habita com o altivo, mas com o contrito e abatido de espírito (Is 57.15); somente os puros de coração verão a Deus (Mt 5.8); Deus dá graça aos humildes (Tg 4.6,10; 1 Pe 5.5,6); precisamos ter consciência de nossa completa incapacidade de agradar a Deus e sermos justificados pela fé no sangue de Jesus, e não pelas obras (Rm 3.21-28); não estar na carne, mas no Espírito (Rm 8.8-9), e uma série de outras orientações já conhecidas por todos.

A PORTA ESTREITA
Entrai pela porta estreita (larga é a porta, e espaçoso, o caminho que conduz para a perdição, e são muitos os que entram por ela), porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela. Respondeu-lhes: Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não poderão (Mt 7.13-14; Lc 13.24).
O dicionário bíblico explica que, na muralha das cidades fortificadas, havia portas de vários tipos para se entrar nela. As portas mais exteriores eram largas, e outras mais internas iam se estreitando, a fim de que houvesse controle dos transeuntes, a ponto de passar apenas uma pessoa por ela, e com dificuldades.
Essa era a porta estreita, citada por Jesus, uma porta suficientemente larga só para pedestres. Um soldado, em seu uniforme, precisava passar de lado, virando para a esquerda, estando impedido de usar seu escudo, e mostrando suas costas desprotegidas para os guardas. Um camelo só conseguia passar se estivesse livre de qualquer bagagem, e mesmo assim raspando nas paredes da porta. Em contraste, havia a porta larga, a principal, que podia comportar tráfego de veículos, sendo a passagem mais freqüentada.
Sinto que estamos sendo chamados a entrar no Reino de Deus por essa porta estreita. Já passamos pelas portas mais exteriores, e a caminhada deve continuar. Estamos sendo afunilados, angustiados (o caminho está ficando cada vez mais apertado). Como na porta estreita, pela qual o camelo só passava se fosse desvencilhado de toda bagagem que carregasse, assim Deus está nos desvencilhando de nós mesmos. Do lado de dentro, teremos a voz de Deus, a intimidade, a comunhão. Do lado de fora, estamos nós, com nossa imensa bagagem. O que fazer? Miserável homem que sou! Quem nos livrará do corpo dessa morte (Rm 7.24)?
E é justamente esta a minha dificuldade pessoal: a resistência em me render completamente a ele. Resistência à queima total, ao holocausto. Jesus nos orienta para não estarmos preocupados com o dia de amanhã, para não ajuntar tesouros na terra, não andar ansiosos por coisa alguma; diz-nos que as outras coisas serão acrescentadas, e eu me preocupo com tudo isso.
Sinto que atualmente eu não teria nenhuma condição de dançar no meio da fornalha, como Sadraque, Mesaque, Abede-Nego e o anjo do Senhor, sem me queimar completamente (Dn 3.24-25). “Agora, pois, por que morreríamos? Pois este grande fogo nos consumiria; se ainda mais ouvíssemos a voz do Senhor, nosso Deus, morreríamos” (Dt 5.25). E você, dançaria com o anjo do Senhor, no meio das labaredas, ou também morreria queimado?

MINHA ORAÇÃO
Pai, já são tantos anos de vida religiosa, lendo, falando coisas sobre ti, ensinando a outras pessoas, mas sem ter uma intimidade real contigo. Como o teu povo em outros momentos na sua história, acabei me contentando com o que tinha em mãos, deixando de buscar o melhor, a tua vontade. Por comodismo, preferi ficar com Ismael, com Saul, mesmo sabendo que existia um Isaque e um Davi preparado para teu povo. Acostumei-me com a vida na sinagoga e não valorizei a entrada no teu Reino. Não quero mais os substitutos inferiores que eu mesmo criei. Não vou mais endurecer o meu coração quando ouvir a tua voz. Quero andar contigo, ser como Enoque, completamente absorvido por tua presença (Gn 5.23-24). Minha expectativa é, ao chegar no Apocalipse, ver-te face a face e não ser consumido (Ap 22.4). Tem misericórdia de mim, perdoando minha dureza de coração. Rendo-me a ti, lanço-me aos teus pés. Em nome de Jesus! Amém!

Ezequiel Netto

Impacto / Padom

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