tunel escuroSÃO PAULO – Quem é de fé vai para a igreja. Quem não é revê valores. O fato é que a experiência de quase-morte desperta uma reflexão profunda em todos que passam por ela. O dono de salão de beleza Orestes Gomes de Barros, de 59 anos,sobreviveu a 17 tiros durante um assalto em Pirituba, na Zona Norte da capital, há nove dias.

Nenhum dos tiros acertou órgão vital. Foram um em cada calcanhar, um na panturrilha, três na coxa direita, dois na barriga, dois nas costas, três na mão, um no rosto e três que passaram de raspão. Das balas, 13 vão continuar em seu corpo, pois retirá-las pode trazer riscos.Não foi a primeira vez que ele escapou da morte. Quase morreu afogado em alto-mar, escapou ileso ao cair de um ônibus a 90 km/h, e, por pouco, não foi operado no lugar de um paciente que ia tirar um tumor do cérebro.

Desta vez, Orestes, que sempre foi cético, diz que está disposto a entender a “força superior” que espalhou as balas milimetricamente por seu corpo, de modo que não atingissem nenhum órgão vital. “Agora tenho mais certezas do que dúvidas.”

O que muda depois de sobreviver a 17 tiros?
Passei por outras situações, mas dessa vez tive uma experiência inexplicável. Fui para outra dimensão.

Como foi exatamente?Era um túnel e fui subindo muito rápido. Ia em alta velocidade e tudo era colorido. Tinha consciência de que havia morrido. Mas a sensação era de tranquilidade.

Quando foi isso?
Foi quando estava sendo operado em Pirituba. Eu ouvia uma pessoa dizendo que eu não podia ficar lá onde estava e tinha que voltar. Depois, abri os olhos e estava aqui.

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Onde você estava? Você tem religião?

Não sei onde estava, nunca tive religião. Sempre fui cético. Mas sei que foi uma força superior na qual eu não acreditava. Tudo foi milimetricamente calculado, alguma coisa me protegeu.

E agora, você acredita?

Sempre duvidei, mas agora tenho quase certeza de que existe algo superior. Não estou pensando muito sobre isso agora. Vou primeiro cuidar da saúde, mas depois quero procurar entender o que houve.

Oportunidade de despertar De acordo com o médico Franklin Santana Santos, professor do curso Tanatologia – educação para a morte, da pós-graduação em Ciências Médicas da Faculdade de Medicina da USP, a proximidade com a morte dá a oportunidade de rever atitudes e prioridades.

– Esse comportamento independe de religião. Não se consegue mais ser o mesmo – explica o professor, autor do livro “A arte de morrer: visões plurais”, publicado em dois volumes pela editora Comenius. Segundo ele, isso acontece porque existe uma negação coletiva da morte.

– Não se pensa nisso. Afinal, quem morre é o outro. No entanto, a morte faz parte da vida. É preciso se educar para ela. E isso é uma forma de repensar o presente – diz o professor. No cristianismo, livramentos como esse são considerados alertas.

– Deus nos envia seus recados por diversas formas, mas alguns precisam passar por uma experiência mais forte. Mas nem sempre uma experiência traumática aproxima as pessoas de Deus – afirma o pastor Valdir Augusto Vasco, da Igreja Presbiteriana Independente.

Para o médium Marcus de Medeiros, coordenador do grupo espírita Orações Amor e Caridade, experiências de quase-morte fazem parte de um aprendizado. A doutrina espírita entende que a morte só ocorre quando não há mais o que aprender em vida.

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– É uma oportunidade de despertar para um progresso intelectual e moral. É uma experiência pedagógica. Recados ostensivos, como esses episódios, servem de mudança também para os outros – diz.

oglobo/padom.com

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