Silas MungubaO desaparecimento do médico, humanista e pastor evangélico Silas Munguba comove todos os que aprenderam a ver nele um exemplo de reverência à capacidade regeneradora do homem

O Ceará perdeu, ontem, uma de seus referenciais morais e espirituais de maior relevo: o médico Silas Munguba, pastor da Igreja Batista Comunidade do Amor e presidente do Conselho de Orientação do Ensino Religioso no Estado do Ceará, além de fundador e presidente do Desafio Jovem, casa dedicada à recuperação para jovens dependentes químicos.Dele se pode dizer que foi um desses homens para a quem a fé foi a razão de sua vida e uma realidade tão marcante que só pode ser assemelhada à testemunhada por Cristo quando se deparou em seu tempo com alguns daqueles “justos” que apresentou como modelo de fé “para todo Israel.” Uma fé na capacidade regeneradora do homem e que veio referendar a sua imensa devoção pela vida, cuja sacralidade nunca teve dúvidas em apontar como expressão do poder criador e amoroso do divino.

Essa percepção, talvez, remontasse àquele período em que teve de colocar sua vida em risco, quando foi chamado pela pátria a lutar pela liberdade e a dignidade humana, nos campos da Itália, durante a Segunda Guerra Mundial. Lá, não apenas teve a experiência concreta daquilo que considerava ser a proteção divina sobre si, em episódios em que sua vida foi como que lhe ofertada mais uma vez, gratuitamente, mas, igualmente lhe proporcionou a ocasião para o terrível contato com o desperdício da vida e a banalização da morte de tantos jovens sacrificados à besta da violência, do ódio e da barbárie, como subproduto da injustiça e do desamor.

Essa experiência certamente iria contribuir mais tarde não apenas para reforçar sua vocação de médico obstetra – aquele que atua como uma espécie de cicerone para os que chegam a este planeta como rebentos de uma nova vida – mas, particularmente para sensibilizar seu coração diante do drama que começara a espraiar-se pela sociedade brasileira, fazendo vítimas indefesas no mundo juvenil: a disseminação e massificação das drogas. Procurou dar-lhe a resposta que estava a seu alcance, criando o Desafio Jovem do Ceará, uma instituição que foi, por muito tempo, da Bahia ao Acre, a única casa de recuperação com a qual os dependentes químicos podiam contar.

Quantas vidas não encontraram ali o tênue fio de esperança que lhes permitiu emergir de uma noite infernal que tinha tudo para ser eterna? Quantos pais transidos pelo desespero não puderam finalmente encontrar ali um ombro amigo diante da tortura atroz de verem um filho querido mergulhar na escuridão das drogas, sem lhe poderem oferecer o mínimo recurso, por absoluta incapacidade de meios?

Ao deixar para trás uma obra que continuará a inspirar todos aqueles que foram ou serão tocados por seu exemplo, Silas Munguba deixa também o testemunho imorredouro de alguém que sempre viu no outro a face de seu Mestre, certo que estava de que o mínimo que fizesse ao menor desses era a Ele próprio que o fazia. Não há um melhor epitáfio para um cristão.

Opovo/padom.com

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