Quando te desviares para a direita e quando te desviares para a esquerda, os teus ouvidos ouvirão atrás de ti uma palavra, dizendo: Este é o caminho, andai por ele (Isaías 30.21).
A tarefa de ouvir a voz de Deus em meio ao imenso tráfego de informações e vozes que cercam nossas mentes e corações parece um desafio cada vez maior. Embora reconheçamos a necessidade de ouvi-lo e até ansiemos em receber sua direção, muitas vezes, em nossa jornada cristã, temos a impressão de que se Deus está se comunicando conosco, ele o está fazendo em uma freqüência totalmente desconhecida aos nossos ouvidos espirituais. Assim como alguns sons são emitidos em freqüências que somente alguns animais podem ouvir, não são raras as vezes que todos parecem ouvir a voz de Deus enquanto permanecemos ouvindo o silêncio. Já passei por isso várias vezes. Momentos em que o maior desejo do meu coração era ouvir claramente os direcionamentos de Deus, esperando que ele se manifestasse, através de uma experiência sobrenatural preferencialmente. Nesses momentos, quando alguém vem dizendo “Deus falou comigo”, nossos lábios falam “Aleluia!”, e nosso coração permanece indagando por que tais experiências sempre acontecem com alguém ao lado.
Parece injusto. Se Deus é um Deus vivo, que nos ouve e, segundo as Escrituras, não é como os deuses do mundo que têm boca mas não falam, e se a intenção sincera do coração é receber direcionamento divino para cumprir sua vontade e propósitos em nossa vida, por que essa experiência tem que ser tão enigmática e confusa?
Entre as minhas muitas crises, cheguei a uma conclusão. Muitas vezes, Deus prefere não revelar a sua vontade de uma vez.
Isso parece um padrão nas Escrituras. Quando Deus chama Abraão, suas ordens são: “Sai e vai” (Gn 12.1). Ordens um tanto quanto vagas para alguém que estava abrindo mão de sua terra, seus familiares e todos os referenciais de vida que possuía.
Em outros momentos, como nos chamados dos profetas, Deus parece ser bastante enigmático, fazendo mistério a respeito da missão, como diz a Isaías: “Vai e dize a este povo: Ouvi, ouvi e não entendais; vede, vede, mas não percebais” (Is 6:9), ou como a Ezequiel, a quem simplesmente diz: “Eu te envio a eles, e lhes dirás: Assim diz o Senhor Deus” (Ez 2.4), sem maiores detalhes ou instruções. E quanto aos questionamentos ansiosos dos discípulos, aos quais Jesus constantemente se negava a responder diretamente?
Mas por quê? O que leva um Deus soberano a reter informações aos corações inquietos dos seus filhos?
A resposta, eu creio, está em Romanos 12.2: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”
Por várias vezes, li esse texto sem prestar atenção em uma palavra fundamental que ele contém: “experimentar”. O apóstolo não dá a promessa de conhecer a vontade boa, perfeita e agradável de Deus, e sim de experimentá-la. E experimentar é bem diferente de conhecer.
O conhecimento é racional, cartesiano, lógico. A experiência é relacional e intuitiva. Quem conhece recebe uma informação. Quem experimenta recebe vida. Creio que o que Deus espera não é simplesmente um mero aprendizado ou transmissão de informação acerca de sua vontade. Ele deseja que sua vontade seja implantada em nós por meio de uma experiência relacional que não nos leve somente a uma resposta, mas nos leve ao Autor de todas as respostas. Seu silêncio e sutileza não são partes de uma tortura sádica de um Deus cruel brincando com marionetes. Pelo contrário, é uma atitude de amor de um Pai atraindo o coração do filho para o deleite de sua presença.

Qual deve ser então nossa postura diante dessa experiência?
Gosto de uma analogia que expressa bem essa questão. Existem basicamente dois meios de locomoção à longa distância. Para cruzar oceanos, o homem só tem duas opções: voar ou navegar. Em nossos dias, o avião já se provou como o meio de locomoção mais eficaz. Antigamente, porém, tudo era feito pelo mar. Eram dias de viagens desconfortáveis recheadas de perigos nos mares bravios e marcadas pelas náuseas características das longas travessias marítimas. Quando falo de navegar, não me refiro aos imensos navios da era Titanic. Gosto de pensar nas caravelas. Os barcos imensos com velas hasteadas infladas pelo vento. Quando pensamos em navegadores, lembramo-nos dos grandes exploradores que buscavam novas rotas comerciais e acabavam encontrando terras virgens desconhecidas, como é o caso de nossa terra brasilis.
No entanto, essas referências ficaram para os livros de história. Somente nesse passado remoto é que as caravelas encontram primazia. Vivemos na era do avião. Depois que Santos Dumont ganhou os ares pela primeira vez, a humanidade nunca mais foi a mesma. As viagens, que duravam dias, agora duram horas. Em um mundo de apressados, o avião é a inovação mais revolucionária de todos os tempos. Quem voa é mais independente.
Creio que o ato de viver pode se assemelhar a uma destas duas alternativas: podemos viver como pilotos ou como navegantes.
Os pilotos são os viajantes independentes. Uma vez que desenvolveram uma maneira própria de voar, dependem apenas de si mesmos, de seu avião, de seu mapa e sua bússola para chegarem aonde quiserem. São aqueles que um dia decidiram assumir o controle de seus destinos e voar para onde o céu azul lhes permitir. Confiam plenamente em seus aparatos de aviação e dependem única e exclusivamente de sua perícia em pilotar e situar-se no mapa. Podem enfrentar algumas turbulências ou ventos contrários, mas dificilmente suas aeronaves bem construídas se abalam.
Ser piloto de profissão não é nada fácil. O brevê vem somente depois de muitas horas de vôo. Mas não é assim na escola de pilotagem da vida. O jovem sai da faculdade com a autorização para cruzar o mundo no céu azul. Assumimos rapidamente o controle de nossas vidas e aprendemos a mapear nossas oportunidades bem como calcular nossos riscos. A sensação de segurança de ter o manche nas mãos é inigualável. O poder de dominar o destino e o prazer de ver a terra firme se aproximando entusiasma qualquer um.
Voar é um movimento de dinamismo constante. Não se pode parar no ar. Uma vez que começamos a voar, precisamos continuar voando. É assim que a grande maioria das pessoas vive: voando no céu azul da vida, donos absolutos de seus destinos, todos bem equipados com seus aviões, mapas e bússolas, preocupando-se apenas em voar sempre para um lugar melhor.
Mas será que é assim que Deus deseja que vivamos? Qual a participação de Deus na dinâmica da pilotagem? Nenhuma. O avião voa com vento ou sem vento. Não existe participação da natureza no ato de voar.
É por isso que creio que o ato de viver com Deus se assemelha mais com a vida de navegante. Primeiramente, o navegante precisa de um caminho, previamente traçado pelo leito do rio ou pela disposição do oceano. O barco não vai aonde quer, vai aonde a água o permite ir. Existem lugares absolutamente inacessíveis aos barcos, uma vez que dependem da água para flutuarem. Além disso, a força motriz do barco é o vento. Algo extremamente imprevisível. É verdade que se pode remar, mas remar contra o vento pode ser bastante frustrante. Não obstante, se se encontrar a direção certa para onde o vento sopra, basta levantar as velas e deixar que a natureza faça o seu trabalho.
O navegante também tem seu mapa e sua bússola, mas não são instrumentos definitivos, pois devem trabalhar em conjunto com a intuição do navegante. Bom navegante é aquele que aprende a sentir a natureza. Prever intuitivamente para onde o vento vai soprar e preparar-se para o próximo movimento das correntes de ar.
A analogia me parece bastante óbvia. Relacionar-se com Deus e submeter-se à sua vontade é como navegar. Só podemos viver flutuando sobre os recursos providenciados pelo Senhor dos mares. Da mesma forma que existe o caminho do rio ou do mar, existem caminhos predefinidos por Deus para seus navegantes. E se nos dispusermos a depender dele, andaremos somente por onde ele nos permitir.
No entanto, mesmo dentro desse grande e vasto mar da vontade de Deus, podemos nos perder. E é aí que entra o papel do vento. O vento sopra levando o navegador de forma mais específica para o porto aonde deve atracar. Mas viver em função do vento é algo extremamente inquietante. Especialmente para uma humanidade imediatista para quem a estagnação é inaceitável. O vento é imprevisível assim como Deus. Não sabemos quando ele vai soprar nem em que direção. Podemos remar para onde quisermos, mas corremos o risco de, sem perceber, encontrarmo-nos remando em direção contrária ao vento e afastarmo-nos do destino para o qual devemos ir.
Creio que a vontade de Deus se expressa no mar da vida e no sopro divino. Se estivermos dispostos a navegar nessa aparente insegurança, começamos a desvendar paulatinamente o caminho que estamos desenvolvendo. Creio que aqueles que estão dispostos a navegar com Deus passam por momentos em que o vento pára de soprar. E nessas horas, embora a tentação seja continuar remando, o melhor a fazer é esperar e apreciar a paisagem. Remar a favor do vento é trabalhar onde Deus já está trabalhando. Nossa mentalidade pró-ativa nos leva a pensar que tudo depende de nossas iniciativas. Agimos como se nada acontecesse, senão por nossa atividade inicial. Esquecemo-nos de que Deus já está trabalhando em nossa história há mais tempo do que podemos imaginar, e que nossa parte consiste em trabalhar onde ele já começou.
Muitas vezes, o vento que suavemente sopra em nossas costas é a forma mais audível de expressão da vontade de Deus. Sua ação na história e nas circunstâncias ao nosso redor está constantemente dizendo qual é o caminho a ser seguido. E o melhor é que, se aprendemos a viver assim, a maior recompensa não é chegar ao destino, mas sim experimentarmos o vento. Talvez seja por isso que Jesus disse que somos como o vento. E, segundo os inquietos discípulos, até o vento e o mar o obedecem (Mc 4.41).

por Mateus Ferraz

Impacto / Padom

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