Não acredito nesta história de que o amor é cego. Ele até pode se passar por míope; cego, porém, nunca foi nem há de querer ser.


“Pode-se amar até à loucura uma mulher feia, por encantos que superam os encantos da beleza” – (Jan Paulhan).

Não acredito nesta história de que o amor é cego. Ele até pode se passar por míope; cego, porém, nunca foi nem há de querer ser. Mas, então, como explicar o fato de, por exemplo, um homem tido como bonito apaixonar-se pela mulher mais feia da vila? Ou o contrário: uma linda mulher amar loucamente o cara mais ridículo da cidade?
Bem. Não consultarei os oftalmologistas para obter a resposta. Também não irei a Freud. Darei apenas a minha opinião. Que haja alguém que discorde, não duvido, mas, vá lá, opiniões são opiniões. Cada um tem a sua. Eu tenho a minha.
A questão, creio eu, deve ser analisada dentro dos mais estreitos parâmetros da lucidez. Quando se age apenas pela vaga emoção, fazer sexo, por exemplo, torna-se sempre fazer amor; aproveitar-se de uma mulher é dar-lhe prazer; a traição é um simples deslize ou fraqueza da carne; viver entre tapas-e-beijos, ódio e desejos, é algo muito normal entre um casal que se ama. Agora, quando deixamos a emoção de lado e, com o coração no cérebro analisamos o fato, a realidade se faz tão evidente quanto à claridade para o que enxerga. Dessa forma, fazer sexo por fazer e fora dos planos de Deus, nada mais é do que uma nítida demonstração de egoísmo; aproveitar-se dos sentimentos de uma mulher, é auto-satisfação centrada apenas no eu do aproveitador; a traição, longe de ser uma fraqueza, é falta de caráter, ou mais que isso, é uma imbecilidade; viver um casal em constantes brigas, em vez de ser um aquecimento para o quem vem depois, é falta de diálogo e, portanto, sinal de que algo está errado entre eles. Em suma: há um abismo de diferenças entre o sentido e a razão, entre a pele e o coração.
Escrevi tudo isso para dizer que o amor não é cego. Ora, o amor é cego para aqueles que, pela sensibilidade do sentido, deixa-se envolver por algo que, quase sempre, não é o que está dentro da pessoa. Quiçá a aparência física, talvez a lisonja, ou, quem sabe, o anseio por uma vida materialmente estabilizada.
Cego? Não! O amor vê melhor do que o mais eficiente telescópio. Sim, ele é capaz de enxergar algo até mesmo na profunda escuridão do coração humano. Cego é a paixão desmedida, que vê pelo tato, que enxerga pela emoção momentânea. Cego são os sentimentos que nascem de um olhar soberbo ou de uma menta lasciva.
Mas, e quando o amor é míope? Quando deixamos passar despercebido aquilo que fora dele nos magoaria facilmente; quando relevamos as faltas do outro, com as quais pessoalmente não concordaríamos; quando vemos como que por nuvens espessas aquilo que na pessoa os outros consideram falha. O amor nunca foi cego. Cego, como disse alguém, é aquele que não quer vê.

Melodia / Portal Padom

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