A “dor espiritual” de Mijáil Kalashnikov, inventor da AK-47

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O russo Mijáil Kalashnikov, sempre disse que sentia orgulhoso de sua  invenção. No entanto, após sua morte uma carta revela que ele viveu uma profunda crise pessoal e arrependimento manifesto: “O Senhor me mostrou o caminho já no por do sol de minha vida”.

Mijáil-Kalashnikov-inventor-ak-47“Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro o seu perder a sua alma?”, diz a famosa citação de Jesus nos Evangelhos. É uma frase que parecia perseguir a Mikhail Kalashnikov, o aclamado inventor da arma de assalto mais utilizada no mundo, quando se planejava o destino de sua própria alma, no final de sua vida. Embora em público, até sua morte, no dia 23 de dezembro, sempre defendeu que não se arrependia de nada.

Milhões de mortes nos últimos 60 anos

É difícil quantificar quantas pessoas foram mortas pelas balas de um fuzil AK-47, desde as guerras de drogas no México até os massacres na Síria, passando pelas guerras civis em alguns países africanos ou lutando no Oriente Médio. Mas pode-se estimar que tivesse vendido cerca de 100 milhões de cópias da arma, até agora, assim não seria exagerado afirmar que milhões de vidas foram cortadas com esta arma em seus 60 anos de existência.

A notícia de que Kalashnikov sofria uma profunda “dor espiritual” ao pensar sobre os assassinatos que sua invenção trouxe, na segunda metade do século XX tem causado surpresa. Não é o que se poderia imaginar ao ver as fotos que ilustram as reportagens que falavam de sua morte aos 94 anos em dezembro passado. O inventor sempre havia posado com satisfação, inclusive de maneira desafiante, com a arma que manterá viva a memora de seu nome.

“Meu objetivo era criar armas para proteger as fronteiras do meu país”, dizia o inventor russo. “Não é minha culpa que a Kalashnikov tem sido usado em muitos lugares turbulentos. Eu acho que as políticas desses países são as culpadas, e não o inventor da arma. “

Aquele que foi mecânico de tanques de guerra, no entanto, havia reconhecido que “me entristece que (a arma) seja usada por terroristas” (personagens como Osama Bin Laden ou Sadam Hussein foram fotografados muitas vezes com elas). “Preferia ter inventado uma maquina que pudesse ter ajudado as pessoas como os agricultores”.

“Eu sou culpado por essas mortes?”

Sabe-se agora que, apesar de suas explicações, o próprio Mikhail sentia fortes remorsos. Em uma carta escrita em maio de 2012 e dirigida ao chefe da Igreja Ortodoxa Russa, o Patriarca Kirill, Kalashnikov reconhecia a sua dor pelo número de mortes em que a sua invenção havia sido responsável. Ele explicou ainda que aos 91 anos de idade assistiu pela primeira vez uma igreja, onde pediu para ser batizado.

Publicado pelo diário al Kremlin “Izvestia”, pode-se ler: “Meu sofrimento espiritual é insuportável. Continuo tendo a mesma pergunta sem contestar-me: se meu rifle acabou com a vida das pessoas, então, poderia ser eu um crente, cristão e ortodoxo… seja eu o culpado por estas mortes? Quanto mais anos vivo mais penetra esta pergunta em minha cabeça e mais me pergunto porque Deus permitiu ao homem ter desejos demoníacos de inveja, ganância e agressão”.

Na carta, escrita com letras tremulas, Kalashnikov se descreve como “um escravo de Deus” E acrescenta: “O Senhor me mostrou o caminho já no por do sol de minha vida”.

Portal Padom

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