Cresce número de bandidos linchados em Belém

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Foi ele quem roubou, peguem, não deixem que fuja, pois bandido só presta morto, eles não têm pena de nós”, disse um dos populares. Minutos depois, a população já está toda em volta e se armam com pedras, tijolos, porretes e pernas-mancas com a intenção de espancar o acusado. Violência que pode levar à morte do alvo. Esta é uma cena comum em bairros da Grande Belém. A população passa a se autotutelar e a fazer justiça com as próprias mãos.Foi exatamente assim que aconteceu com Sérgio Bittencourt da Silva, de 20 anos, na comunidade do Murinim, em Benfica. Sérgio foi espancado até a morte depois de ter sido acusado pelos vizinhos de assaltar um mercado na comunidade há cerca de duas semanas. Durante o assalto, Sérgio teria alvejado o proprietário do estabelecimento, que hoje passa bem. O acusado levou várias pancadas de perna-manca na cabeça e no peito.
“Poderiam tê-lo amarrado em um poste ou uma árvore e chamado a polícia. As pessoas não têm o direito de fazer o que fizeram com meu sobrinho. Como vamos olhar os vizinhos que fizeram isso com um parente nosso no outro dia?”, questionou Roseana Cardoso de Souza, tia de Sérgio. Ela confessou que a família, mesmo não concordando, sabia que o jovem era usuário de drogas, mas o defendeu dizendo que o fato teria sido armado pelo dono do mercado.
Por outro lado, Edilena Alves da Cruz, irmã de Renato Alves da Cruz, o homem baleado por Sérgio, teve um posicionamento surpreendente com relação ao que fizeram com o rapaz que o assaltou. “Jamais nossa família permitiria que isso acontecesse com um ser humano. Lamentamos esta crueldade. Aquela mãe não tem culpa de seu filho fazer o que fez. Somos evangélicos e não queremos isso para ninguém”, afirmou
Será que as pessoas que foram coadjuvantes nessas ações, consideradas pela justiça criminosa, já perguntaram se a melhor saída para se combater a violência é se tornarem homicidas?.
Conforme publicado no DIÁRIO DO PARÁ, nos últimos quatro meses, pelo menos seis acusados de crimes foram mortos por populares e 13 tentativas de linchamento foram impedidas por policiais.

“Justiça popular” promove a impunidade
“O linchamento é vedado por lei, pois se vive hoje em um estado democrático de direito e o cidadão não tem o poder de se autotutelar. O que ocorre é uma total descrença nos poderes instituídos”, fala Mary Cohen, presidente da Comissão dos Direitos Humanos, da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-Pará).
Ela diz ainda que vivemos a cultura da impunidade. “Quem tem dinheiro não vai para a cadeia e isto acaba gerando na sociedade a necessidade de fazer justiça com as próprias mãos”.
Em muitas das vezes, quando o acusado cai em poder da população, a sua vítima acaba não fazendo o boletim de ocorrência. Esta situação arraigada à prática do espancamento é altamente prejudicial, pois além desta vítima correr riscos mais tarde, o sistema de segurança pública não tem como registrar dados sobre o número de ocorrências referentes a este fato. Além do que quando a vítima não faz o boletim com medo de represália, tudo permanece no anonimato.
Por outro lado, tem pensamentos diferenciados defendendo que “as pessoas não fazem o boletim de ocorrência porque também cometeram um crime, que acaba ficando com autoria incerta. Quando se espanca um ser humano na rua ou em qualquer lugar, a população corre sérios riscos de espancar e até matar um inocente”, falou o delegado de Polícia Civil, Guilherme Trindade, da Seccional de Icoaraci.
O delegado disse ainda que o principal papel das polícias Civil e Militar é salvar vidas e que esta seria uma função impessoal. Por isso, as polícias têm o dever de salvar os criminosos do julgamento popular. Mary Cohen acrescenta. “A pessoa deve pagar sua dívida com a perda da liberdade e não com a perda da vida. Até porque não temos pena de morte no Brasil”.

Danos psicológios podem gerar criminosos mais violentos
Quando situações como esta acontecem com adolescentes que não podem responder por sua infração e são encaminhados aos centros de recuperação a realidade é ainda mais complicada.
Quando escapam da fúria popular com vida, as sequelas psicológicas são bem mais intensas que as dores físicas. Com ódio da sociedade, ele se recupera e poderá alimentar uma sede de vingança durante o período que permaneceu preso e doente.
“Como se trata de um jovem, pessoa ainda em formação, ele pode vir a cristalizar a infração”, é o que explica Pedro Paulo Almeida, psicólogo da Fundação da Criança e do Adolescente do Pará (Funcap).

JUSTIÇA/DEUS/HOMENS
Religiosos também se posicionam sobre a prática. “Queira para o outro o que queres para ti, tua família e amigos” é uma forma de refletir em tal atitude.
Najda Maria de Oliveira, presidente da União Espírita Paraense, fala que o primeiro direito do homem é viver.
“A lei de causa e efeito não deve ser em nenhum momento esquecida. Todos têm liberdade de fazer o que quer, mas, se não for bom, a própria pessoa se condena”, explicou.
Por mais que essa não seja a melhor saída, a população passa a aderir a criminalidade como resposta à falta de segurança vivida por muitos moradores de bairros periféricos. Diário do Pará/padom

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