casamento utiDurante 17 anos, Gislene tentou convencer o parceiro a oficializar o casamento. “Ano que vem a gente casa”, respondia o mecânico Willian Marques da Silva, 37.

Ontem, ligado a um balão de oxigênio, tendo dois médicos como padrinhos e uma fisioterapeuta como dama de honra, ele disse sim. O monitor cardíaco marcava 113 batidas por minuto. Na situação dele, o normal seria 90.

A cerimônia de casamento aconteceu na UTI do InCor (Instituto do Coração), onde Silva está internado desde o dia 27 de fevereiro aguardando um novo coração.

Ele sofre de miocardiopatia dilatada, uma grave inflamação do músculo cardíaco que, sem transplante, pode matá-lo no prazo de um ano.

O coração de Silva trabalha só com 23% da sua capacidade. Ele sobrevive graças a drogas vasoativas que mantêm a força de contração do coração e um dispositivo (balão intraórtico) que aumenta o fluxo de sangue que chega até as artérias cardíacas.

TRANSPLANTE

Segundo a cardiologista do InCor Claudia de Bernoche, por estar muito grave, o mecânico tem prioridade na fila do transplante de coração.

“O primeiro B positivo [tipo sanguíneo de Silva] que aparecer é dele”, diz ela, que foi madrinha do casório junto com o médico Sandrigo Mangini, do grupo de transplante cardíaco do InCor.

Hoje, 40 pessoas estão na fila do instituto à espera de um coração, cinco delas em estágio crítico semelhante ao do mecânico Silva.

As chances de sobrevida em um ano são de 90% e, em dez anos, de 55% a 60%, segundo o médico Fernando Bacal, coordenador do núcleo de transplante do InCor.

DOENÇA

Silva e a mulher, Gislene de Paula, 32, eram vizinhos em Sete Lagoas (MG). “Lembro quando a mãe dela chegou da maternidade com um embrulho cor-de-rosa nos braços”, diz o mecânico, à época com cinco anos.

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Os dois cresceram juntos. “Éramos só amigos, mas de repente a coisa virou e ela engravidou. Só tinha 15 anos. A mãe dela queria que eu casasse, mas eu não quis, preferi juntar os trapos.”

Quando o primogênito nasceu, o casal se mudou para Extrema (MG), onde Silva começou a trabalhar como mecânico. “Ele dizia: ‘Quando tiver casa própria, eu caso'”, lembra Gislene.

Os primeiros sintomas da doença apareceram em 2004. “Comecei a sentir falta de ar quando jogava futebol e nadava na represa.”

No início, teve diagnóstico errado. “Fiquei tratando de bronquite durante três meses e só piorava. Só depois é que um outro médico viu que o problema era o coração e eu comecei o tratamento certo.”

Por alguns anos, funcionou. Mas, nos últimos meses, a saúde de Silva piorou muito e a única chance de sobrevida passou a ser o transplante do coração.

CERIMÔNIA

O casamento, realizado pela padre Anísio Baldessin, capelão do Hospital das Clínicas, parou a UTI do InCor. “Vocês podem se beijar, mas com moderação”, alertou o padre após o “sim”. “Beleza, padre”, respondeu Silva.

É o sexto casamento que o padre Anísio realiza em um leito de hospital.

“Já casei uma senhora de 70 anos. Além de ser um desejo encrustado, as pessoas em situação de fragilidade querem ficar de bem com Deus”, diz o padre.

Horas antes do casamento, um verdadeiro mutirão aconteceu dentro da UTI. Médicas residentes decoraram o quarto com corações coloridos, outra preparou os brigadeiros e a mulher do paciente do quarto ao lado do de Silva, Regina Vaz, fez o bolo.

A equipe toda se cotizou e deu uma geladeira nova aos noivos. “A nossa estava bem velhinha, amarrada com um elástico porque já não fechava mais”, diz Silva.

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A ideia do casamento surgiu quando o mecânico soube que outro paciente havia se casado no InCor, em 2012, nas mesmas condições dele.

Mais do que depressa, Gislene foi comprar as alianças. “Antes que ele desista e me faça esperar mais 17 anos”, brinca. Ao receber a aliança no dedo anular, ela chorou.

Ela visita o marido três dias por semana. Vem numa van da Prefeitura de Extrema.

Ano passado, Silva realizou o sonho da casa própria. “Agora só falta um coração.”

Folha / Portal Padom

 

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