Seita religiosa na Espanha rejeita tratamentos médicos e defende o castigo físico como forma de educação.
Assentada em várias regiões da Espanha está a comunidade das Doze Tribos, organização espiritual que tenta viver no estilo dos primeiros cristãos.

“Eles o manipulam e lavam seu cérebro. Sentem que são os eleitos”, relata um ex-membro da comunidade. A Bíblia é o único livro que seus adeptos podem ler, e eles obedecem rigidamente à doutrina de Elbert Spriggs, um americano que se autoproclama apóstolo e diz receber ordens diretas de Yashua (Jesus em hebraico).

Os membros das Doze Tribos têm de abandonar seu trabalho e seus bens para viver em comunidade, afastados da influência “satânica” da sociedade. Não mandam seus filhos à escola e são acusados de bater nos menores com uma vara de madeira.

“Essa nova cultura se mantém pura porque não permite que entre nada estranho ou sujo que possa contaminá-la. A pessoa deve abandonar tudo para fazer parte dela”, explicam seus membros. Eles se definem como um novo movimento que está surgindo em diversos pontos do planeta. “Quando chegar a hora, quando a comunidade for perfeita e pura, Yashua voltará e limpará a terra de todo vestígio da velha cultura”, afirmam.

A fazenda das Doze Tribos em San Sebastián fica escondida no alto do monte Ulía, perto de um penhasco que dá para o mar Cantábrico. Ali vivem cerca de 30 pessoas com famílias. Há desde um homem de 40 anos que sempre gostou de “viver em irmandade” até um ex-presidiário arrependido de sua vida anterior. A convivência é rigorosamente regulamentada. Levantam-se ao amanhecer, enquanto um deles toca violão e canta de quarto em quarto. A oração e o trabalho marcam o dia-a-dia dos irmãos. Fabricam pão que depois vendem em uma loja ecológica que administram no centro da cidade. Todos adotam um nome hebreu ao entrar na comunidade.

Miguel Perlado é o presidente da Unidade de Cuidados e Investigação de Socioadições (AIS), entidade privada que funciona há 35 anos. Tratou diversas vezes de ex-membros das Doze Tribos. Na opinião dele, o que os transforma em um grupo de risco é a vida em comunidade que realizam, e assim conseguem que o controle do grupo seja mais “férreo” e que o adepto seja “pouco acessível para sua família”. “Toda a estrutura da comunidade e seu funcionamento correspondem a uma seita coercitiva”, explica. “Nas crianças, essa forma de vida cria mais problemas. Têm unicamente um critério aprendido lá dentro. O controle da informação é total. Tudo é público, o líder conhece as experiências de todos, seus medos, suas culpas. Não se tende a respeitar a individualidade da pessoa”, afirma Perlado.

Em 2006, um vizinho de uma das casas das Doze Tribos, nas proximidades de Pravia, fez uma denúncia que deu origem à investigação da Promotoria de Menores. O morador acusou os membros de formarem uma seita e não ter as crianças escolarizadas. Nessa época, os serviços sociais de Astúrias realizaram um relatório que explica: “Os menores convivem com seus pais com um forte ideário e uma vida muito entremeada pela forte carga ideológica e religiosa e as normas da comunidade. Embora se avalie que as necessidades básicas das crianças estão cobertas, não se verifica uma situação de risco”.

A Guarda Civil recomendou realizar um exame psiquiátrico nas crianças sem escolarização. Depois, um psicólogo do Instituto de Medicina Legal de Astúrias examinou as crianças e concluiu: “Não se pode acreditar que os menores, recebendo a educação alternativa que seus pais e o entorno social lhes dispensam e os valores morais implícitos nesses ensinamentos, sofram qualquer tipo de sintomatologia ou transtorno que possa ser atribuído a qualquer tipo de manipulação”. Diante desses relatórios, a promotoria arquivou o caso em 2006.

O relatório fazia referência aos recursos sanitários alternativos utilizados pelas Doze Tribos. Quase não consultam médicos. Em 2001, na França, dois de seus membros foram condenados pela morte de um menino que sofria de cardiopatia congênita, ao qual negaram a medicina moderna. Pelo menos na Espanha algumas famílias começaram a vacinar seus filhos.

O promotor público andaluz José Chamizo também abriu uma investigação. Os serviços sociais da prefeitura de Nerja visitaram a casa da comunidade e não verificaram qualquer risco para os menores. Um porta-voz do defensor público diz que “não levá-los ao colégio não representa obrigatoriamente um caso de descuido”.

Fonte: Cristianismo Hoje

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